Fiat Lux



Não há outras palavras a serem ditas. Este mundo continua sendo uma biografia de diferentes armários, de fortes madeiras que se retorcem para não ceder. Dentro deles, alguns verdadeiros crimes da humanidade. Um vazio preenchido por pessoas reais. Desconfortáveis com o aperto, elas encaixam seus ossos mais doídos nas paredes, que soltam ferpas sobre a pele já machucada. Ao menos assentados no assoalho, não precisam beijar o chão da avenida, com os dentes molhados de sangue arrancado por punhos direitos, fóbicos. Fechados ali, não é preciso se mover, não é preciso agir, basta aceitar a realidade do tato. A escuridão da vida no armário demanda apenas uma coisa em cada movimento: tato. Se outras pessoas chegam perto demais das trancas, haja parcimônia, paciência, e haja tato para manter-se da porta para dentro. Ainda que a sede de sair para tomar um ar seja tentadora, o simples ato de levantar vem acompanhado de profundas cãibras - dores da invalidez de um mundo que os deixa sentados, à espera não se sabe do quê. Há um estranho medo que a imaginação alimenta, de que o mundo lá fora seja feito de tempestades, de que a porta se abra para um abismo tártaro. Dentro do armário, nunca se sabe se o tempo está bom ou ruim para sair. Mas a curiosidade aumenta. O evento cósmico raríssimo acontece apenas uma vez: quando o buraco negro da fechadura se alinha perfeitamente com o buraco negro da pupila... fiat lux! Um universo nunca antes visto se abre. As dores para se agachar perto da fechadura se tornam mais fortes. As pernas parecem trêmulas demais para dar qualquer passo. Mas o vislumbre do universo já destrancou a fechadura. Dentro daquela alma, estrelas brilham como deusas, beijando-se livremente sem a presença de um deus. E as estrelas foram feitas para ocupar todos os espaços. Para o universo em eterna expansão. E então, em uma dessas pequenas explosões, nesse estalar de ossos e ranger de dentes, toma-se impulso e joga-se no chão as portas de madeira. É o peito aberto em um punho esquerdo de largas veias circulando. Do lado de fora, o novo. Do lado de dentro, a paz. 

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