Cara a dentro


Chega um dia que eu me canso de tudo. Quero uma vida nova pros sonhos velhos. Só quero perto de mim quem eu julgo capaz de sonhar o sonho meu. É verdade que não me sinto bem. Esse ar de mentiras me pesa os pulmões. Esses gestos nos lábios me instigam à loucura. Não sei se essa macumba que você chama de amor convence à você mesma. Mas quando se diz que é amor, algo que não se sente, para mim é só gasto de saliva, de músculo facial. Não vou fingir risada porque quero fazer a linha blasé e sair-me superior. Afinal, um dessorriso não significa inferioridade, e sim a a falta de vontade do meu lábio em lhe contemplar com falsidade. Não vou morrer por causa disso, mas hoje não estou a fim. Se hoje eu estou mal, amanhã estarei muito pior. Só não tente me arrancar sorrisos, porque o que eu preciso não é de alguém que me faça rir, e sim de alguém que chore comigo. Esse nó encravado na garganta só me sufoca cada vez mais. Cansei de tentar engolir algo que não desce pelo pescoço. Daqui pra frente tudo o que me enfiarem goela abaixo, eu cuspo de volta cara a dentro.

Long Neck

Já acabamos por hoje. Acabamos para todo um sempre. E eu continuo a me enganar - uma falsidade tão grande que afeta até a mim mesmo. Esse ar de moço, tão seguro de si, mal consegue esconder a forma desfigurada por trás dos meus olhos. Não vê quem não quer. Ou quem não lembra que existo. Não quebro promessas. Quando prometi não chorar por você, é claro que cruzei os dedos até os nós. Mais uma vez molhando os bombons com essa água infernal que me cai dos olhos. Cá estou eu lembrando de você outra vez. Do tapa na cara que perdi a chance de lhe dar. Das outras línguas que você pôs na boca e eu tive que engolir. Da falta de sangue-quente que eu precisava só naquela hora. Me arrependi de tudo e não adiantou de nada. Acho que há uma tendência se revelando em mim. Não sei... Se te visse mais uma única vez, faria de tudo para chegar à você. Olhar os seus olhos e dar aquelas mordidas no seu pescoço. Essa coisa que arrepia a nuca sempre foi minha área. E é no seu pescoço, onde só alcança a língua dos outros e seus perfumes baratos que me davam alergia, que me soltaria por todo. E deixaria os caninos rasgarem a carne.