Corra pra mim


Corra pra mim como se meus braços fossem o único lugar seguro. Perca sua inocência vulgar e me beije o mais forte que puder. Levante-se e corra pra mim. Seja quem você nunca foi antes, por medo de apenas ser. Como se as ruas quisessem te mergulhar na mais fria madrugada, corra para o calor dos meus lábios - essa pequena imensidão vermelha, na qual uma explosão de sentidos e vontades ficam presos na carne esperando que um beijo as liberte. Corra pra mim como se não houvesse tempo para esperar o amanhã. Como se quisesse roubar de si mesma, a capacidade se ser feliz. Larga tudo e vem pros meus braços, pros meus abraços, pro cobertor. Corra pra mim como se no mundo não houvesse outro alguém. E finja que não há. Afinal, esse é um mundo vazio, mesmo que tenha tanta gente. Vem subir e descer as mãos no meu corpo. A pura selvageria disfarçada atrás de um sorriso. Corra pra mim e se jogue nas minhas vontades, me faça lembrar que estou vivo. Vivo! Corra como o sangue em minhas veias, pulsando para tornar real cada pedaço de sonho que apelidei de "você". Descanse. Respire. Repare. Não pare. Corra pra mim.


O batom nos meus olhos.


Você não se lembra, mas naquele dia em que você sorriu, na hora em que os dentes um pouco manchados de batom surgiram tímidos, foi naquele dia que eu vi que não éramos mais você e eu. Alguma coisa mudou entre seus lábios vermelhos e meus olhos marrons. Um erro de percurso me fez perder a razão. E então amei. Em algum lugar nos seus lábios havia um beijo que eu procurava loucamente com meus olhos. Éramos amantes. Mentira, não éramos coisa alguma, mas um dia seríamos. Organizei novamente meu quarto. Joguei fora todo o lixo que pusera o nome de "Recordações". Recordar pra que, se o melhor ainda estava por vir ? Você seria minha. Não sabia explicar por que, mas havia limites demais entre você e eu. E limites são feitos para serem superados. Na parede, o seu retrato. Era um limite a superar. Eu queria suas mãos por entre as minhas. Queria dividir a colcha, banho gelado e café quente. Queria você inteira, cada sorriso que não volta mais. Eu não me importo de esperar, afinal, uma hora as coisas mudam. De repente, o que era dia se torna a mais profunda escuridão. O que era amor, vira rotina e o que era improvável se torna a mais certa realidade. O que era paixão vira amor. Eu te amo vira bom dia e um olhar se torna eu te amo. Ou um sorriso. Ou um batom vermelho. E um dia a gente se entende, se ama, se completa. Não se preocupe, um dia a gente faz tudo o que precisa, pra no outro fazer tudo o que quer.

Questão de Anatomia


Me usou. Como perfume barato, cujo cheiro fraco não agradou e aí jogou fora. Mas o cheiro continuava em suas narinas, e eis que me encontrou novamente. Éramos nós dois ali, onde as batidas que vinham de dentro do meu peito ensurdeciam a música. Seus olhos, negros como a noite mais escura, sugavam para si toda minha a atenção. Simplesmente senti. Arrepiei-me por inevitáveis segundos de hormônios inflamados. Ela me rodeava, como fazem os gatos entre as pernas de quem um dia, arranharam a face. Jogo de sedução. Sangue em ebulição. Coisas que só quem já sentiu pode descrever. A saudade assolava-me. A raiva que guardei por muito tempo, a sete chaves no peito, dissolveu-se no sangue corrente, destruíra-se, destruiu-me.  Emoção vazando pelos poros; resistir já não adiantava. Era pecado. Era bom. A boca macia, pintada de vermelho, deixou na minha a marca da fraqueza que senti. Pregou nela palavras de amor, que devolvi da mesma forma. Ela não se importava comigo e nem eu com ela, mas aquela hora era amor. Era comprar novamente, o perfume que jogou fora. Usou-me novamente e de novo, foi embora. Parecia mais uma questão de corpos, de anatomia, eu sei. Mas ali foi amor, sei que foi. Iludo-me que foi.

Call the nurse.


Seria surpresa se eu dissesse que te quero ? Que preciso provar do seu hálito antes que o gosto do álcool o tome de mim ? Meus ouvidos pedem o silêncio que meus pensamentos não conseguem fazer. Pensamentos que insistem em repetir as mesmas imagens mudas de sorrisos que já dei ao seu lado. Sorrisos que me lembro com uma certa saudade, que vão e voltam a mente com uma facilidade enorme. Pensamentos que afasto com uma boa dose de qualquer coisa sem gelo. Overdose de você. Chame a enfermeira, uma outra mulher que cuide de mim. Sinto uma queimação aqui no peito, diferente de tudo o que já senti. E quero mais. Quero de novo me deitar com outro alguém. Dizer aquelas mesmas bobagens ao pé do ouvido. Sentir os membros tremerem, movidos de desejo. Apertar a carne com vontade. Mordidas nos lábios arrancam suspiros que de leve, arrepiam a nuca. Sonhar acordado. Abrir os olhos e ver que você ainda está ali, me dando o gosto da vida em doses lentas, algumas vezes ao dia. Medicação proibida. Desejo proibido. Um calmante nas veias e um beijo. Boa noite.

paranoia


Tenho me sentido sozinho, mesmo rodeado de pessoas que dizem que eu valho a pena. Não sabia que sentimentos também podiam ser clichês. E mesmo que sejam, não me importo mais. O que sinto é verdadeiro, só não sei se é real. O pior de tudo, é acordar todos os dias e não ter certeza se haverá alguém lá, ou se tudo ainda será um pesadelo, desses leves que costumam me acordar pra avisar que é assim que tenho que estar - de olhos abertos. Não sei mais se devo falar ou calar. O silêncio é um bom analgésico, mas sua ardência não me satisfaz. Já não percebo mais a enorme diferença entre os olhares preocupados que insisto em esconder por trás de um sorriso meio amargo... sorriso de cafeína gelada, de músculos forçados a mostrar felicidade. Não suporto mais essa paranoia que faz de mim meu próprio inferno. Neurônios que já fazem tráfico de sinapses, me deixando ao ponto de nem eu mesmo ser capaz de me entender. Já não sei se é verdade ou não. Não sei se confio ou não em mim mesmo. Se vou escolher sem mesmo olhar as possibilidades. Cortisol insuficiente pra controlar toda essa adrenalina. Toda essa pseudoparanoia que ainda não desvendei.