Luz de teus olhos


De repente não tenho mais sonhos de vida. Não sei mais o que preciso além de ti. Nunca pensei que ser livre significaria estar completamente preso a alguém. A luz dos teus olhos me atrai com uma força irresistível, chama meu corpo pra perto do teu e, lentamente, me trai com meus próprios desejos. Nunca pensei que pudesse sentir tanta vontade - essa insaciável vontade de te amar como se o sol não precisasse nascer amanhã. Jamais imaginei, nem nos meus melhores sonhos, que pudesse riscar suas costas com as unhas e me sentir no céu. Teus olhos são o céu. E a paz que vem lá de dentro se opõe claramente a escuridão dos meus. Os gritos que guardei começam a sair como música. É algo tão bom que beijos não são suficientes. Mas não guardo sentimentos no peito. Nele não há espaço pra mais nada além do sangue que corre rápido pelas veias, tentando expulsar de mim todo o amor que sinto, para que enfim eu possa transmiti-lo a ti. O que somos nós além de belos corpos que transmitem um desejo em comum? Não que isso seja ruim, pelo contrário: quando amamos um ao outro, todo o resto desaparece, e o que sobra somos nós mesmos - de corpo e alma incontroláveis. Afinal, somos só animais. Quando estamos a sós tudo é simplicidade. Aí está você, usando-me. E aqui estou eu, gostando-te... Simples, pois, como a luz dos teus olhos que se fecham em silêncio, me dizendo que nada acabou. Que mesmo que não precise, o sol nascerá e devolverá a mim a luz de teus olhos.

Ressonância


Por mais um dia seus sorrisos me fazem feliz. Está tudo tão calmo que posso ouvir sua respiração aumentar quando nos aproximamos. Quando me jogo em seus braços esperando o inverno chegar. E quando o sol vai sumindo do dia, espiando por detrás do horizonte, você se encosta em meu peito, como se quisesse por um segundo ter certeza de que meu coração ainda bate por ti. Eu rio. Mergulho em seus olhos na mais profunda escuridão, sem medo de não achar o caminho de volta. Na verdade, eu sempre me perco em você. Em algum canto, encontro a saída - acho que é quando seus lábios finalmente tocam os meus e sou obrigado a fechar os olhos. São gestos lentos e sutis, como se estivéssemos experimentando um ao outro. Provando além da carne, e sorrindo. Minhas mãos se agarram às suas e então você já sabe... Não há paz maior no mundo que dançar em seus braços ao som do silêncio. Passos surdos pra lá e pra cá e você se joga ao chão, com a certeza de que vou te pegar quando cair. E eu rio. Mergulho no som da suas risadas que quebram o silêncio, mas não a paz do ambiente. Afinal, uma garrafa de álcool vai percorrer nossos corpos em dois minutos. Você vai sorrir em um minuto, quando acabar de beber do gargalo. Vou sentir uma ardência em cinco segundos, quando a loucura engarrafada descer pela minha garganta. E vamos ser felizes essa noite, porque não preciso esperar pra saber que te amo.

Melancolia


Não acho que eu tenha o direito de não ser feliz. Nunca foi uma escolha, apenas imagens de sonhos que quero que sejam reais. Não quero palavras, mas sim braços que cuidem de mim, abraçando-me quando nada mais puder me sustentar. Estou assim, insustentável. Não consigo mais enxergar o mundo da forma linda que era. O mundo é nada mais que a realidade podre que tenho que engolir sem café. Me tirem daqui e me levem para um par de braços! Sinto que não serei mais eu se não for capaz de amar. Eu preciso amar. A vida aparece-me em um vestido vermelho, deita-se em minha cama e me leva toda a dignidade. Não a ouço acordar do meu lado e quando desperto ela já foi embora. Como eu gostaria de uma xícara de café quente. Tenho direito apenas ao amargo infortúnio que me obriga a fechar os olhos e pensar: que diabos estou fazendo fora do paraíso? No fim das contas, o inferno nada mais é do que essa gente toda ao meu redor. Cada passo que dou parece uma fuga completa. Cada dia que se vai representa um pouco de ar fresco onde posso respirar. E a morte me vem em vestido vermelho. Deita-se comigo e me arranca a vida num segundo. Por algum tempo só existe o paraíso. E então ela me despeja, como quem diz "vai em paz menino, e faz tudo o que nasceu pra fazer". Rapidamente caio da cama: estou novamente vivo às 6 da manhã.