
Me usou. Como perfume barato, cujo cheiro fraco não agradou e aí jogou fora. Mas o cheiro continuava em suas narinas, e eis que me encontrou novamente. Éramos nós dois ali, onde as batidas que vinham de dentro do meu peito ensurdeciam a música. Seus olhos, negros como a noite mais escura, sugavam para si toda minha a atenção. Simplesmente senti. Arrepiei-me por inevitáveis segundos de hormônios inflamados. Ela me rodeava, como fazem os gatos entre as pernas de quem um dia, arranharam a face. Jogo de sedução. Sangue em ebulição. Coisas que só quem já sentiu pode descrever. A saudade assolava-me. A raiva que guardei por muito tempo, a sete chaves no peito, dissolveu-se no sangue corrente, destruíra-se, destruiu-me. Emoção vazando pelos poros; resistir já não adiantava. Era pecado. Era bom. A boca macia, pintada de vermelho, deixou na minha a marca da fraqueza que senti. Pregou nela palavras de amor, que devolvi da mesma forma. Ela não se importava comigo e nem eu com ela, mas aquela hora era amor. Era comprar novamente, o perfume que jogou fora. Usou-me novamente e de novo, foi embora. Parecia mais uma questão de corpos, de anatomia, eu sei. Mas ali foi amor, sei que foi. Iludo-me que foi.