Cosmovisão


Quando olho nos teus olhos, vejo meu reflexo besta, meu queixo caído, meus olhos vidrados, meu sono perdido... Paro e penso no porquê de serem assim tão nítidos, tão evidentes, tão entregues a mim. Nada escondem, nada querem. No teu olho esquerdo tem uma manchinha negra, um resto da íris, um ponto em meio ao azul. Seria ela toda a maldade que não consigo ver? Seria ela teu eu se afogando nesse mar pacífico? Rude dizer que é um defeito dos teus genes... É mais um lembrete de que em todo espelho há um pouco de distorção. Aprendi a amá-la. Adoro olhar-te assim, de tão perto... Assim percebo que os poucos centímetros do teu olhar alcançam o infinito do meu ser. Nesse minúsculo furo, por onde entra a luz do mundo, também transpassa a escuridão que me guia. Quando abre os olhos, és a criatura mais perfeita da terra. Quando os fecha, resta-me lembrar que és. Se eles falassem, não diriam nada. Sufocariam-me com o eterno indizível. Quando tento olhar para eles de relance, vejo uma parte diferente da galáxia - uns planetinhas coloridos que andam de um lado para o outro no meu olho. Dizem os tolos que é um efeito da luz. Quando não os vejo, alucino em minha eterna vontade de tocá-los, de sê-los. Mas eles são arte ali mesmo, emoldurados no corpo. Deveriam expandir-se para além de si, tocar as almas e levar cor a este mundo sombrio. Mas permanecem lá, imóveis e inalcançáveis. Tortura maior não há. E descubro-me masoquista.